Friday, March 21, 2008

DIE LISTE #49

Area – “Caution Radiation Area” (1974)

O nome de hoje não é uma das muitas obscuridades que preenchem a lista, bem pelo contrário, Area é quase o epónimo do rock progressivo italiano. No entanto, esta relação não goza de propriedades comutativas, pois seria demasiado redutor encerrar este criativo grupo naquilo a que vulgarmente se designa de rock progressivo. Um pouco na esteira experimentalista e de fusão dos Soft Machine – referência que os próprios confirmam – os Area destacaram-se pela sua ousadia e temeridade, não só musical como política. Aliás, uma das razões do seu sucesso em meados de setentas foi precisamente o seu empenho claro nas correntes mais à esquerda do socialismo e do comunismo e o seu internacionalismo, como prova a sua presença num Portugal pós-PREC. Quem fosse nascido nessa altura, poderia ter estado às cavalitas de um pai barbudo e de pés descalços, na Fête de l’Humanité, em Aubervilliers, ou na 1ª Festa do Avante em 1976, a assistir a um dos concertos destes Area – concertos que constituiríam o disco ao vivo lançado apenas em 1996 “Parigi-Lisbona”-, ou ainda dois anos depois, durante o mês de março, em três concertos, Lisboa, Porto e, sim, Coimbra, tocando ainda em Julho desse 1978 em Cuba!
O disco escolhido é “Caution Radiation Area”, o segundo álbum, editado em 1974 pela Cramps. Com textos e música de Patrizio Fariselli, Ares Tavolazzi e Giampaolo Tofani (o 1º e o último, nomes também incluídos na lista), o disco é uma travessia experimental e intensa pelo rock de fusão com o jazz, desnorteada pelas delirantes experiências vocais de Demetrio Stratos (outra presença por mérito próprio neste menú de bizarrias e obscuridades), num horizonte poético situado entre o internacional socialismo e a crítica musical pós-adorniana. Marca do seu modernismo, mas também da sua modernidade, o disco, por um lado, abre-se à inovação electro-acústica e liberta-se dos formatos adquiridos da canção rock popular ao deixar-se contaminar pela forma aberta do jazz, por outro, encerra-se numa crítica auto-referencial que instaura o seu poder soberano, ainda que numa lógica concêntrica de fascínio onfaloscópico. Em relação com “Arbeit Macht Frei”, o primeiro álbum, que lhes deu imediato sucesso com o tema homónimo ou com o hino apaixonado “Luglio, agosto, settembre (nero)”, “Caution Radiation Area” é, como o nome indica, uma área onde é exigida alguma cautela por parte do ouvinte seduzido pela primeira aventura do grupo italiano, não só pela sua alegada radioactividade como pela complexidade que procura uma escuta activa e persistente.
Do oriente, e muito a propósito, não fosse Demetrio Stratos um grego nascido no Egipto, uma escala atonal serpenteia pelo sintetizador ARP de Fariselli, para assim abrir o álbum, que segue a uma velocidade alucinada com o “Cometa Rossa”, numa livre incursão pelo jazz de fusão. A próxima, “ZYG (Crescita zero)” diz-nos que a “estética do trabalho é o espectáculo da mercadoria humana” e, talvez por isso, se deixe embarcar na utopia tecnológica que no futuro socialista libertaria a humanidade da sua servidão operária. Um breve regresso ao jazz electrificado, com o sintetizador EMS de Tofani e com o piano de Fariselli, para “oxidar os cabos da liberdade” ou exorcisar o poder magnético da tecnologia em “Brujo”. Volta-se o disco e é uma “Mirage? Mirage!” que se desenvolve longamente entre a experimentação electro-acústica e o puro deleite lírico da bizarria vocal de Stratos, através de cúmplices e acelerados canais rítmicos que sobrevoam o delírio tele-jornalístico quase imperceptível, mas subjacente aos espectros que se formam na aridez do deserto mediático. No fim, resta apenas a solução derradeira, a “Lobotomia”, sanando com o ruído cirúrgico as incompletudes e incompreensões que confundem os críticos do rock, nascidos depois da Filosofia da Nova Música por Adorno. Metodicamente, deixámo-nos acompanhar por essa mesma “Lobotomia” como banda sonora para estas insensatas palavras e já de seguida ouviremos “Cometa Rossa” e depois “ZYG (Crescita zero)”.

Tracklist:

1. Cometa Rossa (4:00)
2. ZYG (Crescita zero) (5:27)
3. Brujo (8:02)

4. Mirage (10:27)
5. Lobotomia (4:23)

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1 Comments:

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