
Os Ashra eram, na sua essência, o projecto a solo de Manuel Göttsching, e traduziram uma evolução natural no caminho da simplicidade, a começar pela redução do nome – de Ash Ra Tempel para Ashra – e a terminar na sonoridade, com a ênfase na electrónica meditativa a suplantar o delírio psicadélico de outrora. A transmutação foi lenta, como qualquer trabalho alquímico que se preze, e teve lugar em 1977 com a gravação de dois trabalhos, “New Age Of Earth” cujas primeiras edições foram creditadas a Ash Ra Tempel, mas que reedições nos anos seguintes apresentaram a marca registada Ashra, e “Blackouts”.

É mais uma vez numa transição que nos situamos, desta feita com a inclusão de um simples “@” que demarca a entrada de Göttsching na era da informação e da Internet. O primeiro volume, “@shra”, foi gravado ao vivo no Club Quattro em Osaka e no On-Air-West de Tokyo, editado no Japão pela profícua Captain Trip e na Alemanha pela Think Progressive. Ao visualizar o alinhamento constante na capa do disco, qualquer indivíduo, minimamente inteirado da história do Krautrock, fica de “orelhas no ar”. Para além de Göttsching, encontramos Lutz Ulbrich, dos Agitation Free, nas guitarras e teclados, e Harald Grosskopf, dos Wallenstein, nas percussões, acompanhados por um desconhecido Steve Baltes no baixo. A tónica dos momentos iniciais do disco é apelativa, revelando um ambiente sonoro sombrio cuidadosamente sintetizado, uma electrónica opressiva que paradoxalmente traz implícita a promessa de libertação. Contudo, cinco minutos volvidos e eis que surge uma batida 4/4 que teima em não desaparecer ao longo de todo o disco, e que deita por terra todas as expectativas criadas em torno dele. Uma batida que desperta o adepto de tunning que existe, bem fundo, no inconsciente de cada um de nós, e que se traduz numa vontade tremenda em adquirir um novíssimo tubo de escape de alto rendimento para a nossa viatura.

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